Não gosto muito de migalhas. São pequeninas, não matam a fome e para nos alimentarmos delas é preciso paciência: ou pegamos em cada uma à vez ou rapamos a mesa para a mão e daí atiramo-las pela goela abaixo.
Mas estas migalhas são diferentes, porque têm um sabor especialmente açucarado e derretem-se na boca muito devagarinho (e assim já parece mais); e, ao invés das migalhas que caem na mesa quando esfarelamos o pão (ou o migalhamos) – que são todas igualmente iguais e indistintas, feitas de uma monotonia enfadonha -, estas são especiais, são todas diferentes e cada uma tem qualquer coisinha especial, algum pormenor em que não se tinha reparado no dia anterior ou algum sabor que não se conhecia; como aquelas pintarolas de cores diferentes que sabem todas ao mesmo mas que ‘lá mais p’ró fim’ se começam a distinguir, uma mais docinha, outra com um sabor a chocolate branco, outra com outras coisas que nos surpreendem sempre.
Também sou um menino, ainda pequenino, mas em crescimento e em vias de constituir família.
