A mamã faz anos hoje! Agora, agorinha, daqui a nada. São 00h49, e às 4h40 a mãe fica, oficialmente, com uma completa porção de anos – o suficiente para encher duas mãos e, quiçá, o bastante para livrá-la de dissabores com vendedores suspeitos.
As prendas ficam para depois. Por agora, vamos a outras coisas. Falta a data (que não marquei), mas o que importa está lá. Beijinhos, mamã.
Hoje acordei cedo, como de costume. Não é complicado; aliás, sábado é o único dia em que não me custa acordar antes de o sol estar a brilhar com força. Há sempre aquele incentivo especial de ir dar uns pontapés na bola, correr e estar com os amigos. O ritual, aliás, é sempre o mesmo. Acordar, levantar, desligar o despertador, calçar os chinelos, espremer o sumo, metê-lo na garrafa, fazer o pão, o café, meter o açúcar no iogurte, comer, lavar a cara, vestir, arrumar a mochila, sair. Não necessariamente por esta ordem.
Hoje (na verdade é ontem: estou a escrever já depois da meia-noite) fiz sumo de laranja, como de costume. É a melhor parte da manhã (melhor até do que quando o bebo, embora acerca disso possa haver desacordo). A máquina faz aquele brrrrrrrrr, brrrrrrrrrrrrrr, brrrrrrrrrr… E a cozinha está praticamente sozinha: resto eu, as laranjas (que passam os seus últimos momentos comigo) e o espremedor. E eu fico a pensar em ti. Hoje-ontem pensei em ti. Muito. Estavas gira; vá, bonita é mais correcto. Os cabelos encaracolados, os olhinhos castanhos, as mãos irrequietas, os ombros delicados. Já lá vai tanto tempo que os vi pela primeira vez!… E eles continuam bonitos. Mantiveram o brilho mas ficaram meus conhecidos. Antes apreciava-os à distância – agora posso segredar-lhes coisas; antes só podia olhá-los – agora não passo sem os tocar.
Se calhar não devia estar a perder-me com estas coisas. Se calhar, em vez de estar para aqui a escrever tolices (pareço uma criança, raios) devia ir ter contigo e olhar para ti; com um bocado de sorte até me deixavas tocar o teu corpo, que nos últimos tempos me tem ocupado a cabeça. É pena já ser tarde. Eu disse que queria ir aí ter contigo. E tu disseste que não. Porquê, por que é que não me deixaste ir aí? Era tão necessário, tão absolutamente necessário. É que tem sido complicado, todos estes dias com chatices, sempre zangados, sempre ranhosos. Chego a ficar triste e, depois, chego a escrever estas patetices. Podias ter-me deixado ir ter contigo. Depois não vou querer. Depois vamos chatear-nos e tu vais perder o brilho, os teus ombros vão ficar mais baços, os teus olhos vão secar e as tuas mãos vão parar de se mexer. Eu não quero assim, os últimos dias já têm sido baços que chegue.
(Já passaram alguns meses depois disto; não perdeste o brilho. E eu estou contente. E tu continuas linda).