Migalhinhas! Há quanto tempo não nós víamos! É verdade, já passaram muitos meses. O papá foi trabalhar para um sítio longínquo e enorme. Chama-se Lisboa. É uma cidade como Braga mas com mais lojas de brinquedos e mais carros. As pessoas são iguais mas são em maior número.
É mais ou menos como passar da 4ª classe para o 5º ano: de súbito vês que aquilo que te parecia grande é, afinal de contas, muito pequenino.
Eu sei que tens saudades. A mamã diz-me todos os dias que quer que eu volte. Mas para já não pode ser. O meu trabalho está aqui. É uma coisa cansativa mas engraçada. Se quiseres saber o que faço, podes abrir um jornal todas as manhãs e ler lá o meu nome. É verdade, eu escrevo num jornal. São coisas muito patetas e das quais não ias querer saber, porque
envolvem dinheiro e trabalho e essas coisas chatas com as quais só os adultos se preocupam.
Mas é uma coisa a prazo, vais ver. Agora tem de ser, porque não tenho mais nada que fazer. Mas, prometo, mal encontrei outra coisa da qual possa extrair dinheiro para te comprar fraldas e leite Agros, zarpo e vvvvvvuuuuuuuuummmmmm! Vou para pertinho de ti outra vez. Este
vvvvvvvuuuuuuuuummmmmmmmmmm! é para ser lido como o som de um passarão a bater as asas e a ir ter com o filhote. Como se fosse o Zorbas e tu a cegonha.
E quando puder ir para aí vai ser tudo melhor. Vou deixar de perder tempo em viagens, vou poder dar-te a papinha todos os dias e passear contigo. Ah, e vai haver beijinhos. De vez em quando, porque também tenho de dar miminhos à mamã (ela tem outro nome para isto: amorosices). Senão ela arrelia-se, eriça o pêlo todo, cerra os dentes e os punhos e faz: nnnnnnnhhhhgggggggggggggg!!!!!! É muito mau de se ver.
E agora, hora de dormir. Vá, xixi cama!